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Identidade Profissional e Transição de Carreira no Momento 50+

  • Foto do escritor: Clauber de Andrade
    Clauber de Andrade
  • há 5 dias
  • 7 min de leitura
Identidade profissional e planejamento de carreira para profissionais acima de 50 anos
Identidade profissional e planejamento de carreira para profissionais acima de 50 anos

Resumo


As transições de carreira sempre exigem preparo, mas no momento 50+ elas ganham contornos ainda mais delicados. Nesta fase, além dos aspectos práticos da mudança, emergem questões emocionais e de identidade profissional que precisam ser reconhecidas e trabalhadas com atenção. Este artigo analisa e realça estes aspectos, assim como tem o intuito de chamar a sua atenção para a importância deste momento e sobre como o planejamento consciente e o autoconhecimento podem transformar a transição de carreira em um processo de crescimento.


Introdução


A vida profissional é marcada por fases, conquistas e inevitavelmente por mudanças. Algumas dessas mudanças são planejadas, fruto de escolhas conscientes; outras são impostas pelas circunstâncias. Em qualquer caso, a transição de carreira demanda atenção e preparo.


Quando falamos do momento 50+, essa atenção se intensifica. Nessa etapa, o desafio não se limita a reposicionar-se no mercado: trata-se também de revisitar a própria identidade profissional e de repensar o propósito que guia a vida laboral (Brooks, 2022). Afinal, a essa altura, não basta apenas “ter um trabalho” — é comum que surja a necessidade de alinhar carreira, valores pessoais e busca por realização.


Mercado, Expectativas e Realidade do Momento 50+


Como já tive a oportunidade de mencionar em outros artigos da minha Newsletter (vide, por exemplo, Evolução da Sociedade e Seus Impactos nos Desafios Empresariais e Carreiras Contemporaneas: Adaptabilidade como Chave do Sucesso), o mundo do trabalho vem passando por transformações profundas nas últimas décadas, e todas estas mudanças impactam todos os profissionais, mas tornam-se ainda mais significativas para quem vive a fase do momento 50+.


Isso porque, além das exigências práticas de atualização e reposicionamento no mercado, essa etapa traz consigo reflexões ligadas à identidade profissional, ao propósito e até mesmo à busca por satisfação e felicidade no trabalho.


O profissional que chega a essa fase já acumulou conquistas, experiências e aprendizados, mas muitas vezes se vê diante da necessidade de redefinir o rumo da própria carreira, conciliando expectativas pessoais e demandas de um mercado em constante transformação.


Essa combinação de fatores faz com que a transição de carreira no momento 50+ seja mais do que uma decisão estratégica: ela se torna um movimento de reconstrução e de alinhamento entre quem o profissional é e o que deseja deixar como legado.

Esse pano de fundo ganha ainda mais relevância quando evidencia-se que a longevidade tem aumentado de forma consistente – a expectativa de vida no Brasil já ultrapassa os 76 anos (IBGE, 2023) -  o que amplia o período em que indivíduos permanecem ativos e desejam contribuir com suas competências.


Por outro lado, observa-se uma tendência de rejuvenescimento nas posições de liderança: em grandes corporações globais, a idade média dos executivos caiu para 53 anos (Spencer Stuart, 2022), revelando um mercado que, ao mesmo tempo em que se beneficia da maior longevidade da força de trabalho, reduz a presença de profissionais mais experientes em cargos de comando


Identidade Profissional: O Núcleo da Transição


Nossa identidade profissional é construída ao longo da vida, a partir de cargos, conquistas, desafios e escolhas que moldam a forma como nos enxergamos e somos reconhecidos no mundo do trabalho. Muitas vezes, ela se torna quase indissociável da identidade pessoal, trazendo status, pertencimento e até senso de propósito.


Entretanto, ao chegar ao momento 50+, essa identidade pode ser desafiada. A transição de carreira nessa fase não é apenas uma mudança de função ou setor, ela pode representar a necessidade de se revisitar a história construída, o que pode gerar insegurança ou sensação de perda. Como lembra Hermínia Ibarra (2009), esse processo pede coragem para “testar novas versões de si mesmo”, explorando caminhos até encontrar uma configuração renovada de identidade.


É também nesse período que o questionamento sobre propósito se intensifica. Mais do que estabilidade, muitos profissionais passam a se perguntar: o que ainda me traz realização? Que contribuição desejo deixar?


Assim, compreender a identidade como núcleo da transição significa perceber que, no momento 50+, mudar de carreira é sobretudo construir uma nova narrativa para si — e quanto mais consciente e planejado for esse movimento, maiores as chances de que se torne uma experiência enriquecedora e transformadora.


Aspectos Cognitivos e Emocionais da Mudança


O momento 50+ envolve mudanças naturais do ciclo de vida, que englobam possíveis questionamentos identitários mais profundos, sendo que as dimensões de transição ganham contornos ainda mais intensos.


Do ponto de vista cognitivo, a neurociência oferece pistas importantes para compreender essa fase. Pesquisas de Raymond Cattell (1963) apontam que, ao mesmo tempo em que algumas habilidades ligadas à rapidez de raciocínio tendem a se reduzir gradualmente após os 40 anos, outras, relacionadas à experiência acumulada e ao julgamento crítico, tornam-se mais fortes (veja mais detalhes sobre este tema no meu artigo Maturidade Profissional e Pessoal: Virtudes, Benefícios e a Crise da Meia-Idade).


Esse equilíbrio torna o profissional 50+ especialmente valioso, pois sua maturidade contribui para análises mais consistentes e para a tomada de decisões em contextos complexos.


Mas, se a dimensão cognitiva traz novas formas de equilíbrio, a dimensão emocional é, muitas vezes, a mais desafiadora. Mudanças de carreira nessa fase podem despertar sentimentos de insegurança, medo do futuro ou até mesmo a sensação de perda de relevância. Esses sentimentos, se não forem reconhecidos e bem trabalhados, podem levar à paralisia ou a escolhas precipitadas.


Nesse contexto, a literatura também aponta para a chamada crise da meia-idade, que é caracterizada por reflexões profundas sobre propósito, conquistas e o tempo restante de vida ativa (Levinson, 1978; Lachman, 2004).


Muitos profissionais se veem diante de um balanço entre o que já realizaram e aquilo que ainda desejam construir, o que pode provocar ansiedade e até certo desconforto com a percepção de “urgência” para redefinir rumos.


Ainda que possa ser vivida como uma crise, esse período também pode funcionar como catalisador de transformações significativas, ao incentivar revisões de prioridades e a busca por maior alinhamento entre carreira, valores e felicidade.


Portanto, compreender os aspectos cognitivos e emocionais da mudança — incluindo a crise da meia-idade como parte natural desse processo — é fundamental para qualquer planejamento de carreira no momento 50+.


Essa consciência ajuda a reconhecer limites e potencialidades, além de preparar o profissional para utilizar sua maturidade como vantagem competitiva em vez de enxergá-la como barreira.


Planejamento: O Alicerce da Transição 50+


Planejar a carreira é relevante em qualquer fase da vida, mas no momento 50+ esse cuidado se torna indispensável. Isso porque – como dito aqui anteriormente – a transição nessa etapa não envolve apenas decisões profissionais — trata-se de repensar a própria identidade, administrar as emoções e preparar condições práticas que assegurem uma mudança sustentável.


Nesse sentido, o planejamento funciona como o instrumento que transforma reflexões em estratégias concretas. Idealmente, essa preparação deve começar antes mesmo do momento 50+, de forma antecipada e gradual, para que a transição seja conduzida com segurança e clareza.


Quando essa etapa chega, torna-se ainda mais essencial que o profissional esteja pronto para assumir uma postura ativa, pois os desafios dessa fase exigem mais do que respostas imediatas: pedem visão de futuro, intencionalidade e capacidade de reposicionamento. Algumas dimensões são particularmente relevantes:


  • Revisão de propósito – refletir sobre o que realmente traz satisfação, legado e impacto nesta fase da vida.

  • Avaliação e atualização de competências – identificar pontos fortes, lacunas e investir em novos aprendizados, sobretudo em áreas emergentes do mercado.

  • Planejamento financeiro – assegurar bases sólidas que permitam explorar oportunidades com segurança e autonomia.

  • Rede de apoio e mentoria – buscar apoio de colegas, mentores e especialistas que possam oferecer feedback e ampliar perspectivas.

  • Reconstrução da identidade profissional – compreender que a transição não é apenas uma troca de função, mas uma oportunidade de reposicionar a narrativa sobre quem se é e como se deseja ser reconhecido no mercado.


Portanto, encarar o planejamento como alicerce da transição significa reconhecer que a reinvenção não acontece de forma improvisada. É um processo que exige consciência, disciplina e intencionalidade — e que pode transformar a transição do momento 50+ em uma das fases mais ricas e significativas da vida profissional.


Conclusão


A transição de carreira no momento 50+ é um fenômeno que vai muito além de um simples reposicionamento no mercado. Ela envolve a necessidade de compreender um mercado paradoxal — em que a longevidade amplia o tempo de contribuição, mas em que as empresas tendem a valorizar perfis mais jovens em posições de liderança.


Envolve também o desafio de revisitar a identidade profissional, reconstruindo narrativas que foram formadas ao longo de décadas e que agora precisam ser ressignificadas diante de novos propósitos.


Do ponto de vista humano, essa fase é marcada tanto por mudanças cognitivas — como a passagem da predominância da inteligência fluida para a cristalizada — quanto por fortes demandas emocionais.


É aqui que emerge, muitas vezes, a chamada crise da meia-idade, que, longe de ser apenas uma ameaça, pode ser vista como um convite à reflexão profunda sobre sentido, legado e felicidade no trabalho.


Nesse contexto, o planejamento de carreira torna-se o verdadeiro alicerce da transição. Mais do que reagir a pressões externas, ele permite assumir uma postura protagonista, alinhando competências, finanças, redes de apoio e, sobretudo, a identidade profissional a um novo futuro.


Quando conduzido com intencionalidade, esse processo pode transformar o momento 50+ em um período de grande renovação, permitindo que a maturidade se converta em diferencial competitivo e em fonte de realização pessoal.


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Referências Bibliográficas


  • BROOKS, Arthur C. Strength to Strength: Finding Success, Happiness, and Deep Purpose in the Second Half of Life. New York: Portfolio, 2022.

  • CATTELL, Raymond B. Theory of fluid and crystallized intelligence: a critical experiment. Journal of Educational Psychology, v. 54, n. 1, p. 1–22, 1963.

  • IBARRA, Herminia. A identidade de carreira: como reajustar sua carreira para o futuro. São Paulo: Alta Books, 2009.

  • IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Tábuas completas de mortalidade para o Brasil 2023. Rio de Janeiro: IBGE, 2023.

  • LACHMAN, Margie E. Development in midlife. Annual Review of Psychology, v. 55, n. 1, p. 305–331, 2004.

  • LEVINSON, Daniel J. The seasons of a man’s life. New York: Knopf, 1978.

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