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Como Desenvolver o Hábito de Cuidar da Sua Carreira

  • Foto do escritor: Clauber de Andrade
    Clauber de Andrade
  • há 1 dia
  • 9 min de leitura
Mulher de blazer bege caminha por passarela moderna ao ar livre, entre vidro, concreto e árvores, em luz suave.
Mulher de blazer bege caminha por passarela moderna ao ar livre, entre vidro, concreto e árvores, em luz suave.

Resumo


Há uma observação que se repete, com poucas variações, em praticamente todas as interações que tenho com outros profissionais quando o assunto é a gestão da carreira: a dificuldade de pensar ativamente e com regularidade sobre a própria carreira. Não por falta de interesse ou de consciência sobre a importância do tema, mas por uma dificuldade mais prática, que é a de transformar essa consciência em uma prática contínua. Revisitando recentemente duas referências sobre a ciência dos hábitos, encontrei um caminho que considero interessante para propor uma resposta a essa observação. Este artigo parte dessas duas contribuições para propor uma forma concreta de desenvolver o hábito de cuidar da carreira.


Introdução


Em artigos anteriores da minha newsletter, eu já trouxe provocações a vocês sobre o modo automático que costuma conduzir grande parte das nossas decisões profissionais, e de como boa parte da nossa energia acaba consumida pelas urgências do presente, restando pouco espaço para a construção consciente do futuro (A Importância do Planejamento de Carreira: Do Automático à Estratégia Consciente e O Tempo como Ativo Estratégico de Carreira).


Essa minha reflexão nasceu sobretudo de uma observação recorrente que faço há anos em interações com outros profissionais e em processos de mentoria, que é o fato de que a maioria dos profissionais sabe, em algum grau, que deveria dedicar mais tempo e atenção à própria carreira. Porém, essa consciência e atenção usualmente aparece em momentos de crise, de insatisfação ou de urgência, mas logo desaparece assim que a rotina retoma seu ritmo normal.


Foi justamente essa observação que me levou a revisitar duas referências científicas sobre a ciência dos hábitos: o trabalho de Charles Duhigg sobre a arquitetura do hábito, e o de Daphna Oyserman, pesquisadora da University of Southern California, sobre a chamada motivação baseada em identidade. Ao reler essas duas referências, pensei numa forma de aplicar essas ideias diretamente ao tema que mais me interessa: como transformar o cuidado com a carreira em um hábito, e não em uma boa intenção recorrente. É essa proposta que desenvolvo neste artigo.


A Arquitetura do Hábito: Gatilho, Rotina e Recompensa


Se você parar um minuto para observar sua própria manhã, vai perceber que grande parte dela já não exige nenhuma decisão consciente. Você acorda, e antes mesmo de se dar conta, já está seguindo uma sequência quase idêntica à do dia anterior: talvez o celular seja a primeira coisa que suas mãos procuram, depois o café, depois o mesmo trajeto até o trabalho. Não há, ali, nenhuma reflexão sobre alternativas, o comportamento simplesmente acontece, como se estivesse no piloto automático. E, curiosamente, é exatamente esse tipo de comportamento que a ciência dos hábitos escolheu estudar com mais profundidade nas últimas décadas.


Entender por que certos comportamentos se tornam tão resistentes e automáticos, a ponto de se repetirem todos os dias sem que precisemos decidir por eles, foi justamente o que motivou boa parte da pesquisa de Charles Duhigg. O que ele encontrou foi um padrão consistente por trás da maioria dos hábitos: um ciclo composto por três elementos: (1) um gatilho, que deve ser entendido como algum evento que aciona um comportamento; (2) uma rotina, que é o próprio comportamento executado; e (3) uma recompensa, que reforça o cérebro a repetir aquele padrão no futuro (Duhigg, 2012).


Esse ciclo ajuda a explicar por que o modo automático de que já falei em artigos anteriores não é apenas um fenômeno abstrato de economia cognitiva. Toda vez, por exemplo, que você abre o e-mail assim que senta à mesa, e sem que você perceba, há o funcionamento da arquitetura do hábito: há um gatilho (sentar-se, ligar o computador), uma rotina (abrir a caixa de entrada) e uma recompensa (a sensação, ainda que ilusória, de estar produtivo e no controle).


O problema é que essa mesma engenharia raramente é aplicada, de forma deliberada, ao desenvolvimento da própria carreira. Cuidar da trajetória profissional não tem, naturalmente, um gatilho embutido na rotina, pois ninguém é interrompido por uma notificação lembrando de refletir sobre os próximos passos da carreira. E, sem gatilho, não há rotina. Sem rotina, não há recompensa. E sem recompensa, o comportamento simplesmente não se repete.


Registro aqui uma primeira implicação prática dessa reflexão, que chega até mesmo a ser desconfortável na sua simplicidade: se você quer desenvolver o hábito de cuidar da carreira, precisa primeiro desenhar deliberadamente um gatilho para ele, porque ele não vai aparecer sozinho.


Por que Alguns Hábitos Resistem à Recaída e a Maioria Não


Compreendermos a arquitetura do hábito já é um grande passo, mas infelizmente não é suficiente e possivelmente resolverá apenas parte do problema, quando tratamos da condução e gestão proativa da nossa carreira.


A pergunta de igual importância neste aspecto não é apenas sobre como fazer para criar um hábito, mas por que a maioria dos hábitos que tentamos criar não resiste ao primeiro momento de dificuldade.


Uma resposta que considero especialmente reveladora para essa pergunta vem da teoria sobre motivação baseada em identidade, desenvolvida por Daphna Oyserman. Segundo essa teoria, tendemos a preferir agir de formas congruentes com a identidade que temos de nós mesmos, e é essa congruência, mais do que a força de vontade, que determina como interpretamos a dificuldade no meio do caminho (Oyserman, 2009; 2015).


Para melhor ilustrar este aspecto, pense, por exemplo, em alguém que corre há anos, todas as manhãs, mesmo em dias frios ou depois de noites maldormidas. Essa pessoa raramente descreve o hábito como uma questão de disciplina ou vontade, ela diz, quase sempre, alguma variação de "eu sou corredor" ou "eu sou uma pessoa que faz corrida".

E é curioso perceber que, para essa pessoa, um dia difícil de correr não vira motivo para desistir da corrida como projeto; vira, no máximo, um dia mais lento. A dificuldade não questiona se ela deve continuar correndo, ela só torna aquele dia específico mais difícil.

Compare isso com alguém que começou a correr há duas semanas, motivado por uma meta de emagrecimento até o verão. Para essa segunda pessoa, o mesmo dia difícil tende a significar outra coisa: um sinal de que talvez aquilo não seja para ela, de que talvez valha a pena pular só hoje, e amanhã também.


É essa diferença que a teoria de Oyserman ajuda a nomear com precisão. Quando uma ação é percebida como congruente com quem somos, a dificuldade de executá-la tende a ser interpretada como sinal de que aquilo importa, e a pessoa persiste, mesmo sem entusiasmo naquele dia específico.


Quando a mesma ação ainda não faz parte de quem a pessoa entende ser, a dificuldade é lida de outra forma, quase oposta: como confirmação de que "isso não é para mim", e a pessoa abandona, muitas vezes sem nem perceber que essa foi a lógica por trás da desistência. A diferença entre continuar e desistir, portanto, raramente está na dificuldade em si, ela está em como essa dificuldade é interpretada à luz da identidade de quem age.


Aplicando essa referência à carreira, penso que essa mesma dinâmica ajuda a explicar um padrão que você provavelmente já reconhece, seja na própria trajetória, seja observando outros colegas ou pessoas com quem você também interage: a atenção à carreira que desperta justamente nos momentos de crise, ou de insatisfação, quando de repente parece urgente refletir sobre os próprios passos, mas que se dissolve assim que a rotina volta ao normal e a sensação de urgência passa. A ação nasceu da pressão do momento, não de uma identidade.


E, no primeiro momento em que a rotina fica difícil, uma semana mais corrida, uma viagem, um projeto urgente que consome toda a energia disponível, a dificuldade não é lida como parte natural do processo. É lida como motivo válido para pausar. E o problema de pausar "só esta semana" é que, na prática, raramente existe uma segunda semana em que se retoma.


Vale registrar que essa mesma lógica ganhou popularização recente fora do meio científico, por meio do autor best-seller James Clear, que descreve cada repetição de um hábito como um "voto" para a identidade que a pessoa deseja reforçar, uma metáfora simples e útil para nossa reflexão.


Essa distinção entre dificuldade lida como "isso importa" e dificuldade lida como "isso não é para mim" também dialoga com um achado de uma pesquisa científica que conduzi recentemente, com uma amostra de 490 executivos e executivas brasileiros: entre as três dimensões da resistência à mudança avaliadas (cognitiva, emocional e comportamental), foi especificamente a dimensão comportamental que apresentou associação estatisticamente significativa com menor estruturação do planejamento de carreira.


Não afirmo que a pesquisa tenha medido identidade ou interpretação de dificuldade, pois não foi esse o desenho do estudo, mas a coincidência me parece relevante: é justamente no plano comportamental, o da ação sustentada no dia a dia, que a dificuldade aparece com mais força, e é justamente esse o plano em que a motivação baseada em identidade, segundo Oyserman, faz mais diferença.


Hábitos-Chave para Cuidar da Sua Carreira


Temos aqui, então, dois elementos importantes a serem aplicados em nossas práticas sobre as nossas carreiras: de um lado os ensinamentos de Duhigg, com a certeza de que nenhum hábito nasce sozinho e que ele exige um gatilho desenhado deliberadamente, porque a carreira, ao contrário do e-mail ou das redes sociais, não vem com notificações embutidas na rotina; e, de outro lado, as diretrizes de Oyserman, no sentido de que o gatilho, sozinho, não é suficiente para sustentar o hábito além das primeiras semanas, sendo que a identidade por trás da ação é que decide se a dificuldade vai ser lida como motivo para continuar ou para desistir.


Reunir essas duas peças foi o que me levou a pensar em um conjunto pequeno de hábitos, e não um sistema complexo, nem mais uma lista de boas intenções, que já nascem com gatilho definido e com alguma ancoragem em identidade.


A ideia não é adicionar mais uma obrigação à sua rotina já cheia, mas sim de desenhar, com intenção, o pouco que for necessário para que cuidar da sua carreira deixe de depender de motivação e passe a acontecer de forma proativa e natural.


Com essa base, proponho aqui alguns hábitos concretos e progressivos, não como lista definitiva, mas como ponto de partida para você desenhar os seus próprios gatilhos.


  • O ritual semanal de quinze minutos. Escolha um dia e horário fixos, segunda de manhã, sexta no fim do expediente, para uma revisão breve: o que avancei esta semana na minha carreira, além das entregas do cargo? Não é sobre produtividade organizacional; é sobre construir, deliberadamente, o gatilho que falta.

  • O registro simples de evidências. Mantenha um documento único onde você anota, mensalmente, uma conquista, uma competência desenvolvida ou uma decisão estratégica tomada. Isso não é vaidade, mas sim o material bruto de que você vai precisar no seu próximo processo seletivo ou na sua próxima reflexão ou conversa de carreira.

  • A revisão trimestral. A cada três meses, reserve um momento para perguntar: quais competências venho desenvolvendo, e quais ainda preciso desenvolver diante dos desafios que a minha função ou o meu setor vêm exigindo? Não precisa ser uma análise extensa, mas sim um checkpoint honesto que evite que você chegue ao fim do ano percebendo que ficou tecnicamente parado enquanto o seu ambiente de trabalho mudava.

  • A frase de identidade completada pela ação. Depois de cumprir qualquer um dos hábitos anteriores, feche o momento nomeando a ação específica que você acabou de tomar e associando-a explicitamente à identidade que você quer reforçar: "hoje revisei minhas prioridades da semana, porque sou alguém que cuida da própria carreira" ou "acabei de registrar essa conquista, porque sou alguém que cuida da própria carreira". A diferença em relação a uma frase repetida sem contexto é que aqui a identidade não é afirmada no vazio, ela é amarrada a um comportamento real que você acabou de executar. Segundo a lógica de Oyserman, é justamente essa amarração entre ação e identidade, repetida ao longo do tempo, que consolida a congruência e muda como você vai interpretar a dificuldade na próxima semana mais difícil.

  • O reconhecimento consciente da recompensa. Depois de algumas semanas sustentando o ritual semanal ou o registro de evidências, reserve um momento para nomear, para si mesmo, o que esse hábito já trouxe: mais clareza sobre os próprios passos, uma sensação de controle, uma conversa mais segura numa entrevista. Sem esse reconhecimento explícito, a arquitetura do hábito fica incompleta: gatilho e rotina existem, mas falta a recompensa que, segundo Duhigg, é o que garante que o cérebro queira repetir o comportamento em momentos posteriores.


Vale registrar que esses hábitos aterrissam de forma diferente conforme o momento de carreira de cada leitor, sendo que cada definição de período ou indicação de prioridades para registro certamente deverá variar conforme a sua necessidade e momento profissional.


Conclusão


A proposta deste artigo não é que passemos a fazer mais coisas pela nossa carreira, até porque vivemos sobrecarregados de tarefas, reuniões e demandas que competem pela mesma energia e pela mesma atenção, e é justamente por isso que qualquer sugestão de simplesmente acrescentar mais uma obrigação à rotina tende a durar pouco, exatamente como os hábitos que nascem apenas de uma meta com prazo definido.

O que proponho é diferente, e passa por criar estruturas pequenas, com gatilhos bem definidos e ancoradas não numa meta que se esgota quando o prazo termina, mas numa identidade que a pessoa escolhe reforçar a cada repetição, de modo que, quando a dificuldade inevitavelmente aparecer, ela seja interpretada como confirmação de que aquilo realmente importa, e não como um sinal para desistir.


A observação que abriu este artigo, sobre a dificuldade de pensar ativamente e com regularidade sobre a própria carreira, não me parece algo que se resolva com mais um lembrete sobre a sua importância, já que a consciência sobre isso, no fundo, quase todos nós já temos; o que falta, na maioria das vezes, é a estrutura certa para sustentar essa consciência ao longo do tempo, junto de uma identidade que torne essa prática parte de quem somos, e não apenas mais um mero desejo de desenvolvimento da nossa carreira.


Referências Bibliográficas


  • Duhigg, C. (2012). O Poder do Hábito: Por que Fazemos o que Fazemos na Vida e nos Negócios. Rio de Janeiro: Objetiva.

  • Oyserman, D. (2009). Identity-Based Motivation: Implications for Action-Readiness, Procedural-Readiness, and Consumer Behavior. Journal of Consumer Psychology, 19(3), 250–260.

  • Oyserman, D. (2015). Pathways to Success Through Identity-Based Motivation. Oxford University Press.

  • Clear, J. (2019). Hábitos Atômicos: Um Método Fácil e Comprovado de Criar Bons Hábitos e Se Livrar dos Maus. Rio de Janeiro: Alta Books.

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