O Que Aprendi com o Mestrado Profissional: Uma Reflexão sobre Carreira, Ciência e Desenvolvimento
- Clauber de Andrade

- há 21 horas
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Resumo
Durante boa parte da minha trajetória profissional, a ideia de cursar um mestrado nunca esteve no horizonte. Eu sempre associei o ambiente acadêmico como algo muito distante da realidade prática que o dia a dia executivo exige — teórico demais, abstrato demais, descolado dos problemas reais que ocupam a rotina de quem gere negócios e pessoas. Nos últimos anos, no entanto, essa percepção mudou. Neste artigo, eu compartilho meus aprendizados com essa mudança e o que realmente significa fazer ciência aplicada a problemas corporativos, e o quanto vejo que esse processo me ajudou.
Introdução
Por vezes, ouvimos por aí algo como "isso é coisa de acadêmico". Esta é uma frase geralmente dita com um misto de respeito e distância, como se o conhecimento produzido nas universidades pertencesse a um universo paralelo ao mundo corporativo. Um universo interessante, talvez relevante em algum nível abstrato, mas pouco útil para quem precisa tomar decisões complexas sob pressão, prazo e responsabilidade empresarial.
Por muitos anos, foi exatamente assim que enxerguei a possibilidade de cursar um mestrado. Não era uma rejeição ativa, mas, simplesmente, algo que não fazia parte dos meus planos de desenvolvimento. Construí minha trajetória profissional apoiado em experiência acumulada, em formação executiva aplicada, em MBA e pós-graduações voltados à prática de negócios. A ideia de um mestrado, com sua carga de rigor metodológico e produção científica, parecia pertencer a outra trajetória de vida e não à minha.
Essa percepção começou a mudar nos últimos anos. E não foi uma mudança repentina, mas o resultado de uma sensação que foi crescendo aos poucos: a de que, diante de problemas cada vez mais complexos no ambiente corporativo, seria também importante eu aprofundar o meu conhecimento teórico e científico sobre os fundamentos das disciplinas de negócios.
Foi essa lacuna que me levou, já com 25 anos de carreira consolidada, a buscar um mestrado profissional. Além disso, eu tinha também uma percepção de que essa formação poderia ter valor para além do ambiente corporativo e para a minha vida profissional que virá depois dele. E foi essa experiência — mais do que os resultados específicos da pesquisa que conduzi — que eu compartilho com você neste artigo.
A descoberta do que realmente é fazer ciência
Uma das mudanças mais significativas que essa experiência me trouxe foi a desconstrução de uma imagem que eu carregava, talvez sem nunca ter parado para questionar: a ideia de que ciência era sinônimo de laboratório, jaleco branco, fórmulas complexas e um distanciamento quase hermético da realidade prática.
Ao longo do mestrado, percebi que essa imagem, embora não esteja completamente errada, é extremamente limitada, especialmente quando falamos de ciências sociais aplicadas. Fazer ciência, nesse contexto, significa essencialmente uma coisa: ter disciplina para formular boas perguntas, construir hipóteses testáveis e usar teoria já validada como instrumento para investigar e resolver problemas reais.
Essa verdadeira descoberta me abriu uma nova possibilidade e me deu uma nova relação com o método científico. Ele deixou de ser um território distante e passou a ser, na prática, uma ferramenta de gestão. Uma boa pergunta de pesquisa não é tão diferente de uma boa pergunta estratégica. Testar uma hipótese com rigor não é tão diferente de validar uma premissa de negócio antes de investir recursos nela.
Ironicamente, o que antes me parecia distante da prática corporativa revelou-se, ao final, profundamente aplicável a ela.
O valor específico do mestrado profissional
Um ponto que considero importante esclarecer é a diferença entre o mestrado acadêmico tradicional e o mestrado profissional. Essa distinção foi, inclusive, parte do que tornou a experiência viável e relevante para alguém com a minha trajetória.
O mestrado profissional nasce justamente para ajudar a resolver a aparente tensão, dicotomia e percepção de distanciamento entre a academia, o mundo acadêmico e a prática corporativa das empresas. Ele exige o mesmo rigor metodológico de qualquer produção científica séria, mas direciona esse rigor para problemas aplicados, reais, vivenciados no contexto profissional do próprio pesquisador. Não se trata de pesquisa pela pesquisa, mas sim de usar o método científico para investigar, com profundidade, questões que já fazem parte da prática de quem pesquisa.
Foi exatamente isso que me permitiu unir as duas pontas que, até então, eu via como separadas: a experiência prática acumulada em 25 anos de carreira executiva e o rigor metodológico que a ciência exige. O resultado não foi um afastamento da prática em nome da teoria, mas o oposto, um fortalecimento da prática por meio de fundamentação teórica e validação empírica.
Ao longo desse percurso, tive inclusive a oportunidade de aprofundar alguns temas que sempre me acompanharam na prática executiva. Um deles foi o aprofundamento sobre a capacidade de influência da motivação humana na superação da resistência à mudança e à inovação organizacional — um dilema que, arrisco dizer, todo executivo e líder de empresa já enfrentou em algum momento, e que me levou a desenvolver um modelo conceitual com aplicação prática para lidar com essa questão. Um outro exemplo que trago foi um aprofundamento sobre os dilemas e as causas que explicam por que tantos executivos chegam a momentos importantes de transição de carreira sem a preparação que a complexidade desse processo exigiria.
Estes exemplos ilustram bem o que significa, na prática, unir experiência executiva e rigor metodológico para investigar questões que já fazem parte do dia a dia de qualquer executivo.
Disciplina, tempo e o desconforto produtivo
Não posso descrever essa experiência sem mencionar o desafio prático que ela representou. Conduzir um processo de pesquisa com rigor metodológico, em paralelo a uma rotina executiva intensa, exigiu um tipo de disciplina diferente daquela que o ambiente corporativo normalmente demanda.
No mundo executivo, estamos habituados a tomar decisões rápidas, muitas vezes com informação incompleta, e a confiar fortemente na experiência acumulada para preencher essas lacunas. A pesquisa científica exige o oposto: paciência metodológica, revisão constante, disposição para que uma hipótese inicial seja contrariada pelos dados e, principalmente, disposição para aceitar isso sem tentar forçar a realidade a confirmar o que se esperava encontrar.
Esse foi, talvez, o aprendizado mais desconfortável e mais valioso do processo: a humildade intelectual de lidar com resultados que, por exemplo, não confirmam a hipótese inicial não é uma falha da pesquisa — é exatamente o que a torna confiável.
No mundo corporativo, frequentemente buscamos dados que confirmem decisões já tomadas. A ciência exige o movimento inverso: formular a pergunta antes de ter a resposta, e aceitar genuinamente qualquer resultado que os dados apontem.
O que muda no raciocínio executivo
Mais do que descrever uma mudança em mim, prefiro descrever o que esse processo me proporcionou que foi a exposição a um ambiente e a uma forma de pensar que, até então, eu simplesmente não havia tido a oportunidade de desenvolver com profundidade. O mestrado me colocou diante de um método — formular boas perguntas, construir hipóteses testáveis, buscar evidência antes de afirmar — e me permitiu compreender, na prática, o que significa pensar cientificamente.
Knowles (1980), ao desenvolver os princípios da andragogia, destacou que adultos aprendem de forma mais significativa quando o conhecimento se conecta diretamente a problemas reais que precisam resolver. Foi exatamente essa conexão que tornou a experiência tão relevante para mim, pois não se tratava de aprender teoria pela teoria, mas de compreender um modo de raciocínio que poderia, de fato, qualificar problemas que eu já enfrentava na prática executiva.
Hoje, consigo afirmar que passei a enxergar o raciocínio científico como uma ferramenta e uma ferramenta valiosa, que considero relevante para o desenvolvimento de qualquer executivo, independentemente de cursar ou não uma formação acadêmica formal. Formular a pergunta certa antes de buscar a resposta, testar premissas antes de assumi-las como verdadeiras, buscar evidência que sustente uma posição: são competências que, uma vez desenvolvidas, passam a integrar o repertório de quem lidera e decide — não como um conhecimento adquirido e guardado, mas como uma lente que continua sendo exercitada e refinada com o tempo.
Conclusão
Se alguém me dissesse, há dez anos, que eu cursaria um mestrado em fase tão consolidada da carreira, provavelmente eu duvidaria. A resistência que carreguei por tanto tempo — a sensação de que aquele universo era teórico demais para quem vive a prática corporativa no dia a dia — não era infundada. Era, simplesmente, baseada numa imagem incompleta do que a ciência aplicada pode oferecer.
Hoje entendo que a maior parte dos problemas complexos que enfrentamos na gestão de pessoas, na liderança e na tomada de decisão estratégica se beneficiariam de mais perguntas bem formuladas e de mais hipóteses devidamente testadas, e de menos certezas construídas apenas sobre experiência acumulada e intuição.
Não estou sugerindo que todo executivo precise cursar um mestrado, mas deixo um convite a quem, como eu, talvez carregue a mesma resistência que carreguei por tanto tempo: vale a pena reconsiderar o valor prático do método científico como ferramenta de gestão. Às vezes, a teoria que parecia distante é exatamente o que falta para enxergar com mais clareza os problemas que já conhecemos bem demais para resolvermos sozinhos.
Referências Bibliográficas
KNOWLES, M. S. The Modern Practice of Adult Education: From Pedagogy to Andragogy. Chicago: Follett, 1980.










