Governança no Século XXI: Governança e Integridade Corporativa
- Clauber de Andrade

- 26 de jun. de 2025
- 7 min de leitura
Atualizado: há 18 horas

Resumo
A governança corporativa moderna requer uma abordagem estratégica que transcenda seu conceito tradicional. Este artigo explora a evolução da governança corporativa, destacando a necessidade de uma constante releitura que reflita os desafios empresariais atuais. Apresenta a proposta de Governança e Integridade Corporativa como um modelo integrado que alinha ética, sustentabilidade e valor competitivo.
Também enfatiza o papel essencial das lideranças modernas na construção dessa nova abordagem.
Introdução
Os desafios empresariais estão em constante evolução, impulsionados por fatores como globalização, inovação tecnológica e demandas crescentes por sustentabilidade.
Conforme abordado no primeiro artigo desta Newsletter (Evolução da Sociedade e Seus Impactos nos Desafios Empresariais), essas transformações sociais e econômicas moldaram o ambiente organizacional, exigindo respostas dinâmicas e integradas. Nesse contexto, a governança corporativa emerge como uma ferramenta essencial para enfrentar tais desafios e gerar valor.
Desde seu surgimento, a governança corporativa tem sido um pilar essencial para garantir transparência, responsabilidade e equilíbrio nas relações entre stakeholders. Contudo, o mundo está constantemente em mudança, e desafios como transformações tecnológicas, globalização e demandas sociais por ética e sustentabilidade exigem que a abordagem em governança também evolua continuamente.
Neste artigo, discutiremos como a governança corporativa precisa ser revisitada à luz dos novos tempos e propomos uma evolução para o conceito de Governança e Integridade Corporativa.
A Evolução da Governança Corporativa
Conforme aponta Tricker (2015), o conceito de governança corporativa evoluiu significativamente ao longo do tempo, refletindo as mudanças nos contextos sociais e econômicos. Enquanto o foco inicial era garantir a proteção dos acionistas, a governança gradualmente incorporou questões mais amplas, como responsabilidade social e sustentabilidade, alinhando-se às demandas de múltiplos stakeholders.
A teoria da governança corporativa passou por várias fases ao longo das décadas. De acordo com Camargo (2021), a evolução global da governança foi marcada por etapas significativas:
1992: O Cadbury Report destacou a separação entre propriedade e gestão, protegendo os acionistas.
2002: A Sarbanes-Oxley Act trouxe ênfase à essência sobre a forma e à responsabilização de gatekeepers.
2008: Pós-crise financeira global, reforçou-se a importância da gestão de riscos, controles internos e compliance.
2016: Temas como proteção de dados ganharam relevância.
2019: A governança incorporou o capitalismo de stakeholders e o foco em ESG (ambiental, social e governança).
Camargo (2021) defende que esses movimentos refletem a necessidade de a governança corporativa responder aos fenômenos sociais e econômicos de cada época.
Segundo o IBGC (2015), a governança corporativa é definida como “o sistema pelo qual as empresas e demais organizações são dirigidas, monitoradas e incentivadas, envolvendo os relacionamentos entre sócios, conselho de administração, diretoria, órgãos de fiscalização e controle e demais partes interessadas”.
Já na 6ª edição do Código de Melhores Práticas em Governança Corporativa, o IBGC (2023) reconhece que as empresas devem ser entendidas como agentes econômicos em um sistema de múltiplos stakeholders, incorporando o propósito organizacional como elemento central de sua governança.
Essa releitura do conceito realizada pelo mais reconhecido Instituto de Governança Corporativa do Brasil reflete a necessidade de revisitarmos constantemente seus princípios para atender às demandas contemporâneas.
O Conceito de Governança e Integridade Corporativa
A governança corporativa, em sua essência, é um sistema de práticas que visa garantir transparência, responsabilidade e equilíbrio nas relações entre stakeholders.
Entretanto, sua constante evolução mostra que limitar o conceito à simples obediência às normas é insuficiente para atender às demandas de um ambiente de negócios em rápida transformação.
As organizações contemporâneas enfrentam desafios complexos, como mudanças climáticas, inovação tecnológica e pressões sociais por maior ética e responsabilidade. Nesse contexto, a governança corporativa precisa ir além do cumprimento regulatório e se posicionar como um elemento estratégico, integrando valores como integridade, sustentabilidade e propósito organizacional.
Empresas que adotam práticas mais abrangentes, alinhadas a princípios éticos e à gestão responsável, demonstram maior capacidade de gerar valor financeiro e reputacional. Estudos da McKinsey (2020) indicam que empresas com forte governança ESG (ambiental, social e governança) possuem 20% mais chances de superar a performance do mercado, destacando que uma abordagem estratégica da governança é essencial não apenas para o sucesso empresarial, mas também para o impacto positivo na sociedade e no meio ambiente.
Propomos aqui o conceito de Governança e Integridade Corporativa, que define um modelo integrador voltado ao fortalecimento da reputação empresarial e ao desenvolvimento de uma cultura organizacional ética. Esse conceito pode ser definido como:
“Um conjunto de práticas integradas que visam à construção da reputação empresarial e ao fortalecimento de uma cultura organizacional de integridade, abrangendo não apenas compliance tradicional, mas também relações éticas e honestas com todos os stakeholders.”
Muito além de definições, a Governança e Integridade Corporativa busca promover impacto positivo, gerando valor compartilhado para a sociedade e para os acionistas. Essa abordagem exige que as organizações alinhem ética, sustentabilidade e inovação em suas estratégias.
Um exemplo prático e tangível dessa proposta, que frequentemente exploro em sala de aula, é a atuação das áreas diretamente relacionadas à governança corporativa, como gestão de riscos, compliance, área jurídica, entre outras.
Essas funções, tradicionalmente voltadas ao cumprimento de requisitos técnicos e legais, precisam ir além de seu papel operacional. O objetivo final dessas áreas não deve se limitar ao atendimento regulatório, mas sim alinhar suas atividades a uma visão estratégica mais ampla, posicionando-se como verdadeiras áreas guardiãs do ambiente de governança e integridade corporativa.
Mas, isso exige um esforço consciente para redefinir a mentalidade e elevar o propósito de suas atuações, conectando suas responsabilidades técnicas a iniciativas que fortaleçam a reputação organizacional e promovam a sustentabilidade.
Em outras palavras, o propósito dessas áreas deve estar alinhado com o fortalecimento da reputação e a promoção de um ambiente de governança e integridade corporativa que favoreça a sustentabilidade e a geração de valor.
Essa mudança de perspectiva requer não apenas uma liderança engajada e um compromisso contínuo com os valores éticos e culturais da organização, mas também uma elevação da mentalidade dos profissionais ( -> tema que tratarei especificamente no próximo artigo da Newsletter Governança e Carreira. Propósito em Ação).
Liderança como Pilar da Nova Governança
A implementação da Governança e Integridade Corporativa exige o envolvimento ativo e estratégico das lideranças, pois são os líderes que determinam os padrões de comportamento e cultura dentro de uma organização.
Em um ambiente corporativo cada vez mais orientado por valores éticos e sustentáveis, as lideranças têm a responsabilidade de traduzir os princípios de governança em práticas concretas, que não apenas previnam desvios, mas também promovam um ambiente de integridade.
Segundo Di Miceli (2015), os líderes desempenham um papel crucial na construção de uma cultura ética, sendo fundamentais na identificação e na mitigação de vieses que possam comprometer a transparência e a responsabilidade organizacional.
Seu engajamento não se limita à supervisão, mas inclui inspirar equipes, incentivar o diálogo aberto sobre dilemas éticos e alinhar decisões estratégicas aos interesses de múltiplos stakeholders, garantindo que a integridade corporativa seja parte essencial do propósito da organização.
Desta forma, os líderes desempenham um papel central na promoção e sustentação da Governança e Integridade Corporativa. Para isso, algumas ações fundamentais incluem:
Promover uma mentalidade de longo prazo voltada à governança e integridade corporativa: Os líderes devem conectar metas organizacionais aos interesses de múltiplos stakeholders, considerando não apenas os resultados financeiros imediatos, mas também os impactos sociais, ambientais e éticos das decisões empresariais. Esse posicionamento fortalece a credibilidade da empresa e estabelece um alicerce para uma governança orientada ao futuro, garantindo a perenidade do negócio.
Incorporar os valores da integridade corporativa na cultura organizacional: A liderança deve ser o exemplo vivo dos valores éticos da organização. Demonstrar integridade e responsabilidade em todas as interações e decisões cria um padrão que é seguido pelas equipes e pelas demais áreas da empresa. Esse alinhamento ético, quando integrado à governança, consolida uma cultura que prioriza a transparência e o compromisso com os stakeholders.
Facilitar diálogos estratégicos sobre dilemas éticos e governança: Dilemas éticos são inevitáveis em qualquer contexto corporativo. Líderes eficazes devem criar um ambiente que encoraje o debate aberto sobre essas questões, garantindo que todos os pontos de vista sejam considerados. Esses diálogos ajudam a alinhar as decisões estratégicas aos princípios da governança e integridade, além de promover soluções que reflitam os valores organizacionais.
Alinhar governança e integridade às práticas de gestão de risco e compliance: O papel do líder vai além de definir padrões éticos; ele deve garantir que governança e integridade sejam elementos centrais nas políticas de compliance, gestão de riscos e controles internos. Essa integração não só reduz vulnerabilidades organizacionais, mas também fortalece a reputação e cria uma base sólida para a sustentabilidade do negócio.
Capacitar as equipes para agir de forma ética e estratégica: Líderes devem investir no desenvolvimento contínuo das equipes, fornecendo ferramentas e conhecimentos que permitam compreender os desafios da governança moderna e da integridade corporativa. Programas regulares de capacitação e workshops ajudam os colaboradores a internalizar esses princípios e a aplicá-los de forma estratégica em suas funções diárias.
Construir confiança como base da governança corporativa: A liderança deve atuar como um catalisador de confiança, tanto internamente quanto externamente. Relacionamentos baseados na confiança entre conselhos, gestores, colaboradores e stakeholders externos são fundamentais para consolidar a governança e integridade corporativa como um diferencial competitivo.
Conclusão
A governança corporativa está em constante transformação, refletindo as demandas sociais e econômicas de cada época. Revisitar conceitos tradicionais e propor modelos como a Governança e Integridade Corporativa permite que as organizações respondam de forma mais eficaz aos desafios contemporâneos.
Esse é o momento para líderes e profissionais assumirem o protagonismo na construção de práticas que fortalecem não apenas o desempenho organizacional, mas também sua relevância social. Quando alinhada à integridade e ao propósito, a governança torna-se um elemento central para a sustentabilidade e o sucesso das empresas no século XXI.
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Referências Bibliográficas
Camargo, A. A. S. (2021). As Cinco Fases da Governança Corporativa. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/doutrina/secao/4-as-cinco-fases-da-governanca-corporativa-regulacao-internacional-da-governanca-corporativa-e-do-compliance/1294655878.
Di Miceli, A. (2015). Ética Empresarial. São Paulo: Saraiva.
IBGC (2015). Código das Melhores Práticas de Governança Corporativa (5ª edição). Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/4382648/mod_resource/content/1/Livro_Codigo_Melhores_Praticas_GC.pdf
IBGC (2023). Código das Melhores Práticas em Governança Corporativa (6ª edição). São Paulo: IBGC. Disponível em https://ibgc.org.br/blog/lancamento-sexta-edicao-codigo-melhores-praticas-ibgc
McKinsey & Company (2020). ESG e Geração de Valor. Disponível em: https://www.mckinsey.com/capabilities/sustainability/our-insights/the-esg-premium-new-perspectives-on-value-and-performance/pt-br
TRICKER, R. I. Corporate Governance: Principles, Policies, and Practices. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2015.










