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Por Que Suas Decisões de Carreira Nunca São 100% Racionais

Foto do escritor: Clauber de Andrade
Clauber de Andrade
há 10 horas
7 min de leitura
Reunião de negócios ao pôr do sol: mulher gesticula e homem pensa, sentado diante de janela com skyline urbano.

Resumo


Por muito tempo, acreditamos que boas decisões profissionais decorriam exclusivamente da razão. A neurociência, porém, tem mostrado que as emoções são parte inerente de qualquer decisão, mesmo daquelas que acreditamos tomar de forma puramente racional. Esse entendimento ajuda a explicar momentos em que recusamos uma movimentação de carreira que, no papel, fazia todo o sentido, ou sentimos uma resistência que não conseguimos justificar. A hipótese do marcador somático oferece uma explicação para esse fenômeno, a de que experiências emocionalmente intensas do passado deixam registros no corpo, que podem reaparecer, silenciosamente, diante de decisões futuras. Este artigo explora como esses marcadores se formam, de que forma podem funcionar como aliados ou como armadilhas nas decisões de carreira, e propõe um caminho para reconhecer a diferença entre um instinto que protege e um instinto que aprisiona.


Introdução


Introdução

Dentre os temas que mais me encantam, nos meus estudos contínuos sobre comportamento humano, neurociência e suas relações com as nossas carreiras, está o papel que as emoções desempenham nas decisões que tomamos, mesmo quando acreditamos estar sendo inteiramente racionais.


No artigo "Gerenciando Emoções no Trabalho: Um Capricho ou Uma Necessidade para Alta Performance", explorei como a inteligência emocional deixou de ser vista como um aspecto secundário e passou a ser reconhecida como competência central para a liderança e para o desempenho profissional. Já no artigo "O Medo e o Desenvolvimento da Carreira: Obstáculo ou Aliado?", tratei especificamente de uma emoção primária, o medo, e de como ela pode tanto nos proteger quanto nos paralisar diante de transições profissionais.


Vamos agora aprofundar o nosso conhecimento sobre a chamada "hipótese do marcador somático", que sustenta que as emoções guiam e facilitam o processo de tomada de decisão. Diferentemente da inteligência emocional, que trata da nossa capacidade de reconhecer e gerenciar emoções, o marcador somático explica como experiências emocionais específicas do nosso passado ficam registradas em nosso corpo e podem reaparecer, mais adiante, em momentos de decisões futuras.


O Que é um Marcador Somático

Em 1848, um operário ferroviário chamado Phineas Gage sofreu um acidente que se tornaria, mais de um século depois, uma das histórias mais citadas da neurociência. Uma explosão atirou uma barra de ferro através do seu crânio, destruindo parte da região frontal do cérebro.


Porém, depois de sua completa recuperação, as pessoas ao seu redor passaram a notar que ele havia se tornado outra pessoa. Se antes era uma pessoa serena, educada e responsável, tornou-se um homem impulsivo, incapaz de manter compromissos, de planejar o próprio futuro ou de tomar decisões sensatas, mesmo continuando tão inteligente quanto antes.


Mais de cem anos depois, o neurocientista português António Damásio se interessou por casos parecidos com o de Gage, os de pacientes que, após lesões numa região específica do cérebro, mantinham a inteligência, a memória e o raciocínio lógico intactos, mas passavam a tomar decisões de vida repetidamente diferentes ou não tão explicáveis.


Foi observando esse padrão que Damásio começou a suspeitar de algo que contrariava a ideia, até então bastante aceita, de que a razão e a emoção funcionam como sistemas separados.


Ele percebeu que esses pacientes não tinham perdido a capacidade de pensar, mas sim algo mais sutil, que era a capacidade de sentir, no corpo, um sinal de alerta ou de atração diante de cada opção disponível. E foi justamente a ausência desse sinal, não a falta de inteligência, que parecia explicar as decisões.


A partir dessa observação, publicada no livro O Erro de Descartes (1996), Damásio propôs a hipótese do marcador somático, que representa a ideia de que decidir bem não é apenas uma questão racional, mas que depende também de sinais emocionais que o corpo foi registrando ao longo da vida, e que voltam a se manifestar diante de situações parecidas.


Anos depois, um experimento conduzido por Antoine Bechara, em conjunto com o próprio Damásio e outros colegas pesquisadores, testou essa hipótese de forma mais controlada. Através de uma pesquisa científica que contou com um jogo de cartas em que alguns baralhos pareciam vantajosos no curto prazo, mas eram ruinosos no longo prazo.


O resultado confirmou a intuição de Damásio: pessoas saudáveis desenvolviam um sinal físico de alerta diante dos baralhos ruinosos muito antes de conseguirem explicar racionalmente qual deles evitar, enquanto pacientes com o mesmo tipo de lesão de Gage nunca desenvolviam esse alerta, e continuavam escolhendo mal mesmo depois de entenderem conscientemente a estratégia correta (Bechara, Damasio, Tranel & Damasio, 1997).


O resultado desse experimento confirmou cientificamente que decidir bem não depende apenas de processar informações corretamente, mas também de um sinal corporal que vai sendo construído ao longo da vida, a partir de cada experiência emocionalmente significativa que vivemos. O nosso corpo emite sinais o tempo todo, de forma tão sutil que costumamos confundi-los com "intuição" ou "feeling", sem perceber que, por trás deles, pode existir uma experiência concreta do passado.


Essa descoberta ajuda a entender algo que a maioria de nós já viveu no próprio ambiente profissional, embora raramente pare para investigar a origem. A resistência súbita a uma proposta de carreira, ou o entusiasmo inexplicável por outra, raramente nasce do nada.


Na maioria das vezes, existe uma experiência específica por trás desse sinal, sucessos, fracassos, reconhecimentos vividos em algum momento da trajetória profissional, mesmo que a pessoa não consiga, no momento da decisão, se lembrar exatamente de qual experiência se trata.


Marcadores que Protegem e Marcadores que Aprisionam

O mesmo mecanismo que acabamos de descrever não necessariamente funciona sempre da mesma maneira. Em alguns casos, ele age exatamente como deveria, como um sistema de alerta genuíno, construído a partir de experiência real e capaz de nos proteger de riscos que ainda não conseguimos nomear racionalmente.


Em outros casos, porém, esse mesmo mecanismo pode se voltar contra nós, aprisionando decisões em vez de protegê-las, e é justamente essa dupla possibilidade que torna o marcador somático um fenômeno tão delicado de se trabalhar na prática.


Vale dizer, desde já, que nem sempre haverá uma resposta certa ou errada nesse exercício, mas o que proponho aqui é apenas chamar a sua atenção para a importância de você se atentar para esse fenômeno, e sugerir um começo de caminho para que possa trabalhá-lo com mais consciência.


Pense, por exemplo, em alguém que vem considerando, há algum tempo, uma transição de carreira para uma área diferente da atual, mas sente um desconforto persistente sempre que se aproxima do momento de dar o primeiro passo concreto, uma conversa exploratória, uma candidatura, uma conversa com o próprio chefe sobre o assunto.


Se essa pessoa parar para investigar a origem desse desconforto, é possível que encontre uma experiência concreta por trás dele, talvez algo que observou de perto numa transição alheia que deu errado, ou um padrão que reconhece de uma mudança anterior que trouxe mais instabilidade do que o esperado.


O marcador somático, nesse caso, está fazendo exatamente o que a teoria de Damásio descreve, sintetizando, em uma sensação corporal, um padrão que a mente consciente ainda não teve tempo de processar racionalmente. Ignorar esse tipo de sinal, só porque ele não vem acompanhado de uma justificativa lógica imediata, seria renunciar a uma informação real, construída a partir da própria experiência.


Mas o mesmo mecanismo também pode operar de forma bem diferente, e é aqui que ele passa a merecer mais cautela. Pense agora em alguém que vem adiando, mês após mês, o início de um processo de transição de carreira que diz, com convicção, que deseja fazer, mas que nunca encontra o momento certo para começar.


Investigando a origem dessa procrastinação, essa pessoa pode descobrir uma experiência bem específica, talvez uma tentativa anterior de mudança que não deu certo, ou uma ocasião em que se expôs ao propor algo novo e foi recebida com ceticismo ou crítica.


O corpo registrou aquele episódio como perigoso, e continua reagindo da mesma forma diante de qualquer situação que se pareça, ainda que superficialmente, com aquela, mesmo que o contexto atual, a empresa, o momento de carreira, as próprias condições internas, não tenham nenhuma relação real com o episódio original.


É nesse segundo tipo de situação que o marcador somático deixa de funcionar como um sistema de proteção e passa a funcionar como uma espécie de âncora, prendendo a pessoa a um padrão de inércia que já não corresponde à realidade presente, mas que o corpo continua tratando como se correspondesse.


Como Reconhecer a Diferença

A pergunta prática que fica, então, é como distinguir um marcador que protege de um marcador que aprisiona, já que, sentido no corpo, os dois podem parecer exatamente iguais.


Um primeiro caminho é investigar a origem do sinal, em vez de apenas obedecê-lo ou ignorá-lo. Perguntar a si mesmo se esse desconforto específico já apareceu antes, em que situação, e se é possível nomear, mesmo que de forma aproximada, a experiência que o originou.


Um segundo caminho é imaginar como alguém de fora, sem a sua história emocional específica, avaliaria a mesma situação apenas com os fatos disponíveis. Se essa pessoa hipotética também identificaria riscos reais na proposta ou na mudança, o marcador provavelmente está protegendo.


Se, olhando apenas para os fatos, a decisão de seguir adiante pareceria óbvia e a hesitação só faz sentido à luz de uma experiência pessoal específica, é provável que o marcador esteja aprisionando, não protegendo.


Se você está, por exemplo, hesitando diante de uma transição de carreira, de qualquer natureza, pode se beneficiar desse exercício de forma bastante direta. Vale se perguntar se a dúvida que sente diante do próximo passo reflete um risco real e atual, identificável nos fatos da situação presente, ou se repete, de forma quase automática, o medo de um fracasso ou de uma exposição específica vividos em outro momento da trajetória, sob circunstâncias que já não se repetem hoje.


A resposta nem sempre será simples ou imediata, mas o próprio exercício de se fazer essa pergunta já é, em si, um passo importante para transformar o instinto de hesitação em uma decisão mais consciente.


Conclusão

Reconhecer os próprios marcadores somáticos de carreira não significa desconfiar de todo desconforto, nem passar a obedecer cegamente a qualquer sinal do corpo, mas sim tratar esse sinal como uma informação a ser investigada, nunca como uma sentença automática a ser seguida ou descartada sem exame algum.


Como vimos ao longo deste artigo, o mesmo mecanismo que em um momento nos protege de um risco real pode, em outro, nos manter presos a um medo que já não corresponde à situação presente, e nem sempre será simples, ou mesmo possível, saber de antemão qual dos dois está em jogo.


A nossa trajetória em relação à nossa carreira carrega, dentro de si, um arquivo inteiro de experiências vividas, e não há uma fórmula definitiva capaz de separar com precisão o que nesse arquivo ainda nos protege do que apenas nos aprisiona.


O que proponho aqui é bem mais modesto do que uma resposta fechada, é o convite para que você comece a se perguntar, diante da próxima hesitação ou resistência que sentir em relação à sua carreira, de onde vem aquele sinal e se ele ainda guarda alguma relação real com o momento que você vive hoje.


Essa pergunta, sozinha, já é um passo importante para transformar um instinto automático em uma decisão mais consciente.


Referências Bibliográficas


  • Bechara, A., Damasio, H., Tranel, D., & Damasio, A. R. (1997). Deciding Advantageously Before Knowing the Advantageous Strategy. Science, 275(5304), 1293-1295.

  • DAMÁSIO, António R. O Erro de Descartes: Emoção, Razão e o Cérebro Humano. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

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