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O Ciclo Virtuoso da Confiança para sua Carreira: Aja Primeiro, a Certeza Vem Depois

Foto do escritor: Clauber de Andrade
Clauber de Andrade
há 10 horas
7 min de leitura
Mulher de terno preto sobe escadas em lobby moderno, com vista da cidade ao pôr do sol.
Mulher de terno preto sobe escadas em lobby moderno, com vista da cidade ao pôr do sol.

Resumo


Existe uma crença amplamente difundida, presente em diversos aspectos da vida e particularmente forte no desenvolvimento de carreira, a de que primeiro precisamos nos sentir totalmente prontos para depois agir. Porém, a neurociência e a Teoria Social Cognitiva de Carreira mostram que a lógica é exatamente inversa. Quando realizamos uma pequena ação bem-sucedida, o cérebro processa essa experiência como um sinal de avanço, o que fortalece a crença de que somos capazes, e essa crença maior nos leva a outra ação, gerando um ciclo que se autossustenta. Este artigo explora esse mecanismo e explica porque dar o primeiro passo, mesmo pequeno, é o ato mais estratégico disponível para quem deseja fortalecer sua trajetória profissional ou perseguir uma transição de carreira.


Introdução


Já dediquei duas edições anteriores da minha Newsletter a temas que se aproximam bastante do que vou tratar aqui. No artigo "A Autoeficácia no Contexto do Planejamento de Carreira", explorei como a crença na própria capacidade se constrói ao longo do tempo, e destaquei as experiências de domínio, aquelas em que realizamos algo com sucesso, como a fonte mais poderosa dessa crença, segundo Bandura (1997). Já no artigo "Neurociências: Liderança e Carreira", apresentei a dopamina como o neurotransmissor associado ao sistema de recompensa, que é ativado, por exemplo, quando alcançamos metas ou recebemos reconhecimento.


O que não explorei em nenhuma das duas ocasiões, e é isso que quero desenvolver neste artigo, é a ordem em que essas coisas efetivamente podem acontecer. A maioria de nós, quando pensa em fortalecer a trajetória profissional ou mudar de carreira, opera com uma sequência intuitiva, ou seja, primeiro preciso me sentir completamente seguro, preparado, confiante, para só então dar o passo. Essa crença parece tão óbvia que raramente a questionamos. Mas há uma quantidade crescente de evidências tanto na neurociência quanto na teoria do desenvolvimento de carreira, sugerindo que essa sequência está invertida.


A Crença Invertida: Por Que Esperamos Estar Prontos


Muitos de nós, de forma consciente ou não, podemos ficar adiando indefinidamente um movimento importante de carreira porque ainda não nos sentimos suficientemente preparados para dá-lo.


Esse adiamento aparece de formas diferentes, mas quase sempre segue a mesma lógica de fundo. Às vezes ele aparece como a decisão de postergar uma reflexão mais profunda sobre o próprio propósito e os objetivos de longo prazo, sob a justificativa de que ainda falta clareza suficiente sobre o que realmente se quer, como se essa clareza pudesse chegar antes de qualquer movimento, e não como resultado dele.


Em outros momentos, ele aparece como a decisão de adiar uma candidatura, uma conversa ou uma mudança de área, sob o argumento de que ainda falta algum elemento essencial para dar esse passo com segurança.


E, com bastante frequência, aparece também na forma de mais um curso, mais uma certificação, mais um ano de experiência que se julga necessário antes de finalmente se sentir apto a assumir uma nova responsabilidade ou um novo desafio.


Em todos esses casos, a lógica de fundo é a mesma, a de que existe um patamar de clareza e de confiança que precisa ser atingido antes de agir. Mas o problema é que esse patamar raramente se apresenta como um estado alcançável de antemão. Na maior parte das vezes, a clareza e a confiança que esperamos não chegam em sua plenitude antes da ação, elas chegam depois, como consequência dela.


E, enquanto isso, o tempo passa, e a sensação de despreparo, paradoxalmente, tende a crescer, não a diminuir, porque a distância entre onde se está e onde se gostaria de estar parece aumentar a cada mês de inércia.


O Que a Neurociência Ensina Sobre a Ordem Certa


Dentre diversos aspectos que a neurociência nos traz como aprendizados, um avanço relevante veio do estudo dos neurônios dopaminérgicos e de como eles processam recompensas.


O neurocientista Wolfram Schultz demonstrou, em uma pesquisa que se tornou referência no campo, que a dopamina não é liberada apenas quando alcançamos um objetivo final, mas também de forma antecipada, em resposta a sinais que indicam que estamos progredindo em direção a algo relevante (Schultz, 1998).


O núcleo accumbens, região central do circuito de recompensa do nosso cérebro, tem um papel especialmente importante nesse processo. Ele registra cada pequena conquista, por menor que seja, como um sinal concreto de avanço, reforçando neurologicamente o comportamento que produziu esse avanço.


Em outras palavras, o nosso cérebro não exatamente espera um resultado para nos trazer a sensação de recompensa. Ele recompensa o movimento em direção a esse resultado.


Vamos pensar, por exemplo, em alguém que se inscreve num curso para desenvolver uma competência nova ou domínio de alguma ferramenta específica, e assiste à primeira aula sem se sentir nem um pouco mais confiante ou preparado do que estava antes de começar.


Ainda assim, esse primeiro passo já é registrado pelo cérebro como um sinal concreto de avanço, independentemente da qualidade do resultado. E é justamente esse sinal, não a confiança que se esperava sentir antes, que torna mais provável abrir o curso de novo na semana seguinte, e depois na outra, até que a competência, e a confiança que vem junto dela, comecem a se consolidar.


Essa é, a meu ver, a implicação mais prática de todo esse mecanismo, pois o que abre caminho para a próxima ação não é a confiança que supostamente deveria vir antes de agir, mas o sinal de avanço que o próprio cérebro registra assim que damos o primeiro passo dentro de uma etapa de um plano, seja essa etapa, por exemplo, a de escrever um primeiro rascunho de objetivos de longo prazo, a de fazer um primeiro exercício de uma nova competência ou a de realizar uma primeira atividade em direção a alguma mudança, mesmo que ainda de forma incompleta ou imperfeita.


A Confirmação da Ciência da Carreira: A Teoria Social Cognitiva


Essa mesma lógica encontra respaldo em um dos modelos mais influentes sobre desenvolvimento de carreira das últimas três décadas: a Teoria Social Cognitiva de Carreira, proposta por Lent, Brown e Hackett (1994).


Este modelo descreve a autoeficácia, as expectativas de resultado e os objetivos de carreira como elementos que se retroalimentam continuamente, e não como uma sequência linear em que um precisa estar plenamente resolvido antes do outro começar.


Um dos pilares centrais dessa teoria é que a autoeficácia, a crença na própria capacidade de executar determinadas ações, é construída principalmente a partir de experiências reais de desempenho, e não a partir de reflexão abstrata sobre se somos ou não capazes.


Vamos pensar agora em duas pessoas diante da chance de liderar um projeto multidisciplinar pela primeira vez. Uma fica questionando se tem o perfil certo, se já desenvolveu todas as competências necessárias, e vai adiando a decisão até se sentir segura o suficiente. A outra aceita liderar uma etapa pequena e delimitada, mesmo sem certeza se vai dar conta, e só depois de conduzi-la, com acertos e erros, começa a se enxergar como alguém capaz de liderar.


Segundo Lent, Brown e Hackett, é a segunda pessoa que está no caminho mais eficaz, porque a crença na própria capacidade se constrói a partir do desempenho real, e não da reflexão sobre esse desempenho antes mesmo de ele existir. Ou seja, a própria ação, ainda que pequena e imperfeita, é a matéria-prima da qual a confiança é feita, não o contrário.


Isso conecta diretamente com o que apresentei na edição sobre autoeficácia, mas acrescenta uma peça, pois não basta sabermos que experiências de domínio fortalecem a crença na própria capacidade, é preciso também compreendermos que essas experiências, para acontecer, exigem que a ação venha primeiro, mesmo sem a completa certeza que gostaríamos de ter, e que muitas vezes nos impede de agir de forma efetiva.


O Primeiro Passo Como Ato Estratégico


Reunidas, essas duas perspectivas, a da neurociência com o sistema de recompensa e a da Teoria Social Cognitiva de Carreira, mudam algo importante na forma como normalmente encaramos uma decisão de carreira.


Se a confiança não é o ponto de partida que garante a ação, mas sim a consequência dela, a pergunta que costumamos fazer a nós mesmos, quando será que finalmente vou me sentir pronto, está mal formulada, porque pressupõe um estado que não vai aparecer sozinho antes de agirmos.


Isso não diminui o valor de um planejamento estruturado de carreira, tema que já explorei em detalhe na série sobre o Modelo Estruturado para o Planejamento para Transição de Carreira no momento 50+. O planejamento dá direção e evita que a ação vire dispersão. A ação, por sua vez, sustenta a confiança necessária para seguir executando esse plano ao longo do tempo, papel que o planejamento sozinho raramente cumpre.


Na prática, o melhor momento para dar o primeiro passo de uma etapa do plano é assim que ela estiver esboçada, ainda que de forma imperfeita, não depois que o plano inteiro estiver pronto e a pessoa se sentir plenamente segura.


Por isso, o primeiro passo pequeno não deveria ser tratado como um gesto menor ou provisório, algo que se faz apenas até reunir coragem para o movimento "de verdade". Ele deveria ser entendido como o ato mais estratégico disponível para quem deseja mudar de trajetória, porque é justamente ele que ativa o ciclo de reforço que vai gerar a confiança necessária para os passos seguintes.


Para quem está, por exemplo, a poucos anos de uma transição de carreira no momento 50+, isso pode significar dedicar uma única tarde à pesquisa de mercado e tendências, olhando com atenção para um setor ou uma função que desperte curiosidade, mesmo sem certeza de que esse será o caminho escolhido.


Já para os advogados corporativos que desejam deixar de ser percebidos apenas como profissional especialista, pode significar se voluntariar para uma reunião de comitê ou apresentar, uma única vez, uma análise que vá além do jurídico e contenha uma abordagem de negócio.


Em ambos esses casos, essa pequena ação, ainda que discreta, já é registrada pelo cérebro e pela própria narrativa profissional como evidência de que aquele profissional pensa estrategicamente, e essa evidência, mais do que qualquer curso ou certificação, é o que começa a mudar a forma como ele é percebido, e como ele mesmo se percebe.


Conclusão


A crença de que precisamos nos sentir prontos antes de agir talvez seja uma das mais custosas que carregamos em relação à própria carreira, porque transfere para um estado interno difícil de alcançar algo que, na prática, é bem mais simples: dar o próximo passo possível, por menor que seja, dentro do plano que já se tem em mãos.


O que a neurociência do sistema de recompensa e a Teoria Social Cognitiva de Carreira mostram, cada uma a partir do seu próprio campo, é que essa confiança não precede a ação, ela é construída por ela, um pequeno avanço de cada vez.


Talvez por isso, a pergunta mais útil não seja quando finalmente vou me sentir pronto, mas qual é o menor passo que eu já poderia dar hoje.


Referências Bibliográficas


  • Bandura, A. (1997). Self-Efficacy: The Exercise of Control. New York: W.H. Freeman.

  • Lent, R. W., Brown, S. D., & Hackett, G. (1994). Toward a Unifying Social Cognitive Theory of Career and Academic Interest, Choice, and Performance. Journal of Vocational Behavior, 45, 79–122.

  • Schultz, W. (1998). Predictive Reward Signal of Dopamine Neurons. Journal of Neurophysiology, 80, 1–27.

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