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A Importância do Planejamento de Carreira: Do Automático à Estratégia Consciente

  • Foto do escritor: Clauber de Andrade
    Clauber de Andrade
  • 26 de jun. de 2025
  • 10 min de leitura

Atualizado: há 18 horas

Importância do planejamento de carreira - da reação automática à estratégia consciente e intencional
Importância do planejamento de carreira - da reação automática à estratégia consciente e intencional

Resumo


As carreiras definitivamente não são mais definidas exclusivamente pelas organizações, mas pelo protagonismo dos próprios profissionais. Este artigo reflete sobre a evolução dos modelos de carreira e a relevância do planejamento estratégico pessoal para alinhar propósito, habilidades e oportunidades. Com base em conceitos de carreiras contemporâneas, destaca o papel essencial do planejamento como diferencial competitivo. Explora como a neurociência e o funcionamento do cérebro humano impactam a tomada de decisões, fundamentam a resistência à mudança e a consequente necessidade de intencionalidade para a construção de uma carreira estruturada.


Introdução


No passado, a construção de uma carreira era frequentemente vista como uma progressão linear, moldada por fatores organizacionais e pouco influenciada por decisões pessoais. Hoje, no entanto, esse cenário mudou drasticamente. 


Com a evolução de diversos aspectos econômicos, sociais, de tecnologia, dentre outros, que trouxeram outros desafios às empresas no contexto atual (acesse aqui o artigo Evolução da Sociedade e Seus Impactos nos Desafios Empresariais), profissionais precisam assumir o protagonismo de suas trajetórias para se adaptarem a um ambiente dinâmico e altamente competitivo.


Entretanto, planejar a carreira é algo bastante fácil de se falar, mas extremamente difícil de se desenvolver e implementar. Trata-se de um processo que demanda um esforço consciente para romper com padrões automáticos de comportamento e desenvolver intencionalidade nas decisões profissionais.


Além disto, o planejamento de carreira a carreira é um processo que envolve a interseção entre valores pessoais, propósito de vida e as demandas do mercado. Essa abordagem permite não apenas alcançar crescimento profissional, mas também encontrar significado e realização ao longo da jornada.


Neste artigo, vou trazer algum fundamento teórico, mas principalmente uma nova ótica para a compreensão do nosso funcionamento como profissionais e experiência prática para abordarmos a importância do planejamento pessoal para a carreira profissional.


A Evolução dos Modelos de Carreira e as Carreiras Contemporâneas

As carreiras evoluíram significativamente ao longo das últimas décadas. O modelo tradicional, caracterizado por estabilidade e progressão hierárquica, deu lugar a conceitos mais flexíveis e adaptáveis.


As chamadas carreiras contemporâneas representam uma ruptura em relação aos modelos tradicionais que dominavam o mercado de trabalho até o final do século XX. Esses novos modelos surgiram como resposta às mudanças no mercado de trabalho, incluindo a crescente demanda por competências transferíveis, a importância da inovação e a busca por equilíbrio entre vida pessoal e profissional.


Diferentemente das carreiras lineares, que se baseavam na estabilidade e na progressão hierárquica dentro de uma organização, as carreiras contemporâneas são caracterizadas por flexibilidade, mobilidade e autonomia. Elas reconhecem que o sucesso profissional é definido não apenas pela ascensão vertical, mas também pela capacidade de adaptação às mudanças e pela busca de alinhamento entre valores pessoais e objetivos profissionais. Dentre os modelos mais reconhecidos na literatura, destacam-se:


Carreira Proteana


A carreira proteana, proposta por Douglas Hall (2004), faz referência ao deus grego Proteu, conhecido por sua capacidade de mudar de forma conforme as circunstâncias. Esse conceito enfatiza que os profissionais devem ser responsáveis pelo seu próprio desenvolvimento, adaptando-se constantemente às mudanças do ambiente de trabalho. Caracteriza-se pela autonomia, aprendizado contínuo e adaptação estratégica, alinhando decisões profissionais aos valores e objetivos pessoais.


Carreira Sem Fronteiras

Introduzida por Michael Arthur e Denise Rousseau (1996), a carreira sem fronteiras descreve trajetórias que transcendem os limites organizacionais, setoriais e geográficos. Este modelo enfatiza dois aspectos principais:


  1. Mobilidade física: A capacidade de transitar entre diferentes empresas, setores e países, sem depender de uma única organização para o crescimento profissional.

  2. Mobilidade psicológica: A flexibilidade mental e a capacidade de se reinventar em diferentes contextos profissionais, explorando novas áreas de atuação.


Da Teoria para a Prática: Como ser Protagonista na Carreira


Tenho uma boa dose de convicção de que você já sabe de boa parte do que apresentei até aqui. Aliás, arrisco dizer que, ao longo da sua trajetória profissional, já ouviu inúmeras vezes que os profissionais devem ser os donos de suas carreiras e protagonistas de suas trajetórias.


Mas, você sabia que a maioria dos profissionais, especialmente no Brasil, não realiza um planejamento estruturado para suas carreiras?


Estudos demonstram que a falta de planejamento de carreira é um problema recorrente entre os profissionais brasileiros, impactando diretamente suas oportunidades de crescimento e adaptação às mudanças do mercado (Dutra, 2017).


A literatura nacional também aponta que aspectos sociológicos, como a valorização de carreiras tradicionais e lineares, até então, também dificultam a adaptação a novos modelos de gestão de carreira (Costa & Balassiano, 2010).


Diante disso, chegamos à principal provocação deste artigo: como transformar essa teoria – e a clara necessidade de assumir o protagonismo – em prática? Como levar esse conceito para a vida real?


Na literatura e nas pesquisas científicas, encontramos algumas explicações para essa dificuldade generalizada de realizar um planejamento estruturado de carreira. Diversos fatores psicológicos, sociais e organizacionais influenciam essa inércia. Entre eles, destacam-se:


  • A falta de cultura de planejamento e autoconhecimento profissional, muitas vezes não incentivada nas instituições de ensino e empresas;

  • O imediatismo e a priorização de demandas urgentes em detrimento de reflexões estratégicas sobre o futuro da carreira;

  • O medo da mudança e a resistência ao desconhecido, que geram uma tendência a permanecer em zonas de conforto;


Por quê usualmente não planejamos nossas carreiras?


Certamente, não há uma única resposta definitiva para essa questão, mas essa reflexão é algo que trago frequentemente em sessões de mentoria com profissionais em diferentes fases de suas carreiras. E, na minha experiência, vejo que grande parte dessa dificuldade ocorre em razão da própria natureza do comportamento humano e até mesmo em razão do funcionamento do nosso cérebro, algo que as neurociências nos ajudam a compreender.


Nosso cérebro opera, na maior parte do tempo, no chamado "modo automático", um mecanismo que prioriza padrões conhecidos para economizar energia cognitiva (Kahneman, 2012).


Isso significa que, sem um esforço consciente, tendemos a repetir comportamentos e rotinas, sem questioná-los. A neurociência nos mostra que a mudança de hábitos e comportamentos exige consciência, esforço deliberado e prática contínua (Baumeister & Tierney, 2012).


Costumo dizer que, se observamos bem, constataremos que a cada dia tendemos a repetir nossos padrões de comportamento, sem necessariamente refletir sobre eles. Por exemplo, quando acordamos, seguimos uma rotina estabelecida: talvez olhemos o celular, adotemos nossa rotina matinal e seguimos para o trabalho.


E, ao chegarmos no ambiente profissional, provavelmente seguimos um fluxo similar todos os dias – abrimos os e-mails, verificamos reuniões e seguimos um conjunto de tarefas recorrentes. Esse ciclo se mantém porque o cérebro busca eficiência e prefere repetir padrões já consolidados.


Esse fato não é um defeito nem uma virtude, mas sim uma característica do nosso funcionamento. Nosso cérebro adota o maior número possível de ações automáticas para preservar energia para funções cognitivas mais complexas e essenciais.

Agora, vamos extrapolar esse exemplo do dia a dia para o tema central deste artigo: o planejamento de carreira. Se não refletirmos e guiarmos nossas ações de maneira intencional, acabamos conduzindo nossas trajetórias profissionais também no modo automático.


Isso significa que seguimos as demandas do dia a dia, atendemos expectativas externas e respondemos a oportunidades quando surgem – mas sem uma estratégia clara, sem uma visão estruturada sobre nosso futuro profissional.


A boa notícia, no entanto, é que o mesmo cérebro que nos conduz ao modo automático também tem a capacidade de se reconfigurar e se adaptar. Como destaca Mlodinow (2018), nossa mente possui uma incrível flexibilidade cognitiva, permitindo-nos desenvolver novos padrões de pensamento e comportamento à medida que nos expomos a desafios e experiências diversas.


Ou seja, ao adotarmos ações estratégicas, podemos modificar nossos hábitos, aprimorar nosso pensamento crítico sobre a carreira e fortalecer nossa capacidade de decisão.


Para sair do modo automático e assumir o controle da carreira, é essencial adotar estratégias que estimulem a tomada de decisão consciente e a ação planejada.


A Importância do Planejamento Estratégico


No ambiente contemporâneo, deixar a carreira ao acaso é um risco que poucos podem se permitir. A imprevisibilidade do mercado de trabalho e as constantes transformações tecnológicas e organizacionais exigem que os profissionais assumam um papel ativo na construção de suas trajetórias.


Sem planejamento, muitos acabam sendo moldados pelas circunstâncias ou pelos interesses das organizações em que trabalham, sem uma direção clara, o que pode resultar em frustrações, falta de crescimento e desalinhamento entre carreira e propósito pessoal.


Nesse contexto, o planejamento estratégico de carreira é um mecanismo essencial para garantir desenvolvimento contínuo, resiliência e realização profissional. Esse planejamento deve abranger, pelo menos, três elementos fundamentais:


1. Autoconhecimento: o alicerce do planejamento de carreira


O primeiro passo para um planejamento eficaz é o autoconhecimento, ou seja, compreender suas competências, interesses, valores e propósito de vida. Esse processo permite que o profissional tome decisões mais alinhadas com suas aspirações, evitando caminhos que, embora pareçam promissores no curto prazo, possam resultar em insatisfação a longo prazo.


A literatura demonstra que indivíduos com alto grau de autoconsciência conseguem lidar melhor com desafios, tomam decisões mais acertadas e possuem maior capacidade de adaptação (Goleman, 1998). O autoconhecimento fortalece a clareza sobre pontos fortes e áreas de desenvolvimento, facilitando a escolha de oportunidades que estejam alinhadas com as ambições individuais.

Dicas práticas para desenvolver o autoconhecimento:


  • Faça auto-avaliações regulares, refletindo sobre suas experiências profissionais e aprendizados.

  • Desenvolva maior consciência sobre suas virtudes, habilidades e aspectos de desenvolvimento

  • Busque feedbacks construtivos de colegas, mentores e líderes para obter uma visão externa sobre suas habilidades.


2. Definição de Metas: transformando intenções em objetivos concretos

Definir metas claras, realistas e mensuráveis é essencial para que o planejamento de carreira seja efetivo. Segundo Locke e Latham (1990), a teoria da definição de metas destaca que objetivos bem estruturados aumentam significativamente o desempenho e a motivação dos indivíduos.


As metas devem ser estabelecidas de forma progressiva, respeitando o momento profissional de cada indivíduo. Para isso, um método eficiente é a Metodologia SMART, que propõe que os objetivos sejam: Específicos (claramente definidos); Mensuráveis (permitam acompanhamento do progresso); Atingíveis (realistas dentro das circunstâncias); Relevantes (coerentes com os valores e aspirações); Temporais (com prazos definidos para serem alcançados).

Dicas práticas para a definição de metas:


  • Divida seus objetivos profissionais em curto, médio e longo prazo, criando um plano de ação gradual.

  • Priorize metas que estejam alinhadas com sua identidade profissional e valores pessoais.

  • Faça revisões periódicas de suas metas para avaliar progressos e realizar ajustes, se necessário.


3. Estratégia e Execução: convertendo metas em ações concretas


Ter metas definidas é essencial, mas sem uma estratégia clara e execução consistente, elas permanecem apenas como intenções. O planejamento estratégico de carreira deve envolver a criação de planos de ação tangíveis para alcançar os objetivos estabelecidos. Essa etapa inclui desenvolvimento de novas habilidades, ampliação da rede de contatos e busca por experiências que agreguem valor ao crescimento profissional. Estudos indicam que profissionais que investem continuamente no aprendizado e dicas práticas para colocar a estratégia em prática:


  • Desenvolvimento contínuo: invista em cursos, certificações e qualificações que fortaleçam suas competências técnicas e comportamentais.

  • Networking ativo: participe de eventos, grupos de discussão e interaja com profissionais de sua área para ampliar suas oportunidades.

  • Experiências diversificadas: assuma desafios, projetos paralelos e explore diferentes áreas para desenvolver novas habilidades.

  • Disciplina e consistência: crie rituais semanais ou mensais para revisar seus avanços e manter o foco na execução do plano.


Profissionais que assumem o protagonismo de suas carreiras têm maior probabilidade de alcançar satisfação profissional, mobilidade no mercado e posições de liderança. Além disso, um planejamento bem estruturado permite que os indivíduos se adaptem rapidamente às mudanças, transformando desafios em oportunidades de crescimento e diferenciação no mercado.

Mas, para que isso ocorra, é essencial reconhecer que nosso cérebro naturalmente busca padrões já estabelecidos e evita mudanças que demandem esforço cognitivo extra.
Para iniciar um planejamento de carreira eficaz, é preciso desenvolver uma mentalidade voltada para a intencionalidade, desafiando o funcionamento automático e adotando ações deliberadas que nos tirem da zona de conforto.
Criar estratégias de longo prazo requer disciplina e uma reconfiguração consciente de nossos hábitos e crenças, garantindo que o crescimento profissional não fique à mercê das circunstâncias, mas seja conduzido com propósito e clareza.

A questão central, portanto, não é apenas "por que planejar a carreira?", mas "como despertar nossa consciência para interromper padrões automáticos e agir de maneira intencional e estratégica?".

O próximo passo é garantir que essas estratégias saiam do papel e sejam incorporadas à vida profissional de maneira contínua e sustentável.


Conclusão


No cenário contemporâneo, onde as carreiras são cada vez mais dinâmicas e flexíveis, assumir o protagonismo da própria jornada deixou de ser um diferencial e passou a ser uma necessidade para quem deseja se destacar e construir um futuro alinhado com suas aspirações e valores.


Entretanto, conforme discutido ao longo deste artigo, a transição da teoria para a prática exige um esforço consciente. A neurociência demonstra que nosso cérebro opera predominantemente no modo automático, favorecendo padrões já estabelecidos. Esse fator, somado à ausência de uma cultura estruturada de planejamento de carreira, contribui para que muitos profissionais sigam suas trajetórias sem um direcionamento claro.


Para quebrar esse ciclo, é fundamental desenvolver uma mentalidade intencional, que leve à tomada de decisões estratégicas e planejadas. A construção de uma trajetória profissional bem-sucedida exige que o profissional saia da zona de conforto e rompa com a inércia imposta pelo funcionamento automático do cérebro. Isso significa adotar práticas deliberadas, como o desenvolvimento do autoconhecimento, a definição de metas estruturadas e a execução de um plano estratégico de ações.


O sucesso profissional não é fruto do acaso, mas sim da capacidade de agir de forma consciente e estruturada. O planejamento de carreira é um processo contínuo, que exige adaptação e comprometimento para garantir que as oportunidades sejam aproveitadas de forma estratégica.


Portanto, reflita: você está no controle da sua trajetória ou apenas reagindo às circunstâncias? 


Como você tem planejado sua carreira?


Quais desafios enfrenta para assumir o protagonismo da sua trajetória?


Quais ações concretas pode iniciar hoje para garantir um crescimento sustentável?


Deixe suas reflexões nos comentários e compartilhe suas experiências! 

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Referências Bibliográficas


  • Arthur, M. B., & Rousseau, D. M. (1996). The Boundaryless Career: A New Employment Principle for a New Organizational Era. Oxford University Press.

  • Baumeister, R. F., & Tierney, J. (2012). Força de Vontade: A Redescoberta do Poder Humano. Tradução de Claudia Gerpe Duarte. Editora Lafonte.

  • Costa, I. S. A., & Balassiano, M. (2010). Gestão de Carreiras: Dilemas e Perspectivas. FGV Editora.

  • Dutra, J. S. (2017). Gestão de Carreiras: A Pessoa, a Organização e as Oportunidades. Atlas.

  • Goleman, D. (1998). Inteligência Emocional no Trabalho. Tradução de Alves Calado. Editora Objetiva.

  • Hall, D. T. (2004). Protean Careers in the 21st Century. Journal of Vocational Behavior, 65(1), 1-13.

  • Kahneman, D. (2012). Rápido e Devagar: Duas Formas de Pensar. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Editora Objetiva.

  • Locke, E. A., & Latham, G. P. (1990). A Theory of Goal Setting & Task Performance. Prentice-Hall.

  • Mlodinow, L. (2018). Elástico: Como o Pensamento Flexível Pode Mudar Nossas Vidas. Tradução de Cláudio Carina. Editora Zahar.


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